RESSACA SEM FIM

 

Eu só sei que eu não entendo. Tinha tudo pra dar certo. Nós somos adultos, boa-praça e gostamos das nossas vidas. Somos engraçados e, na medida do possível, bonitos e inteligentes. Só que coisas assim costumam acontecer justamente porque pensamos ser perfeitos demais.

 E foi essa perfeição que nos levou a querer ser errados. "Se ninguém gosta de gente direita, vamos ser tortos que ganhamos mais." Só que escolher ser assim é optar por um caminho que ninguém sabe se vai ter volta. Uma vez perdido, sempre desnorteado.

 Mas ser contra as regras no começo é pura diversão. Você perde noites, mas não está nem aí. Você bebe e acha que aquilo é o combustível da diversão. Você beija um, abraça outro, transa com vários achando que cada estocada dentro do corpo alheio vai ser a assinatura de uma carta de alforria para tudo aquilo que sofreu por querer ser certo. E quando o dia seguinte chega o que sobrou de sua consciência pode até rir um pouco de tudo que se passou. Entretanto, mingua ao se dar conta de que tudo aquilo poderia ser mais real se você levantasse a cabeça e andasse erguido, independente de alguém ter lhe arrancado três ou cinco costelas.

Talvez a impressão da atual imobilidade das coisas ao nosso redor nos dê a impressão de que tais coisas são elas mesmas e não outras. Mas a verdade é que, um dos segredos da vida é ter um dia para o sim e um dia para o não. Sempre os olhos em harmonia com a fala. Não adianta afirmar com a cabeça e negar com as palavras.

 Farra pra tudo pode ser um bom remédio. Prostrados diante de copos de cerveja pensamos estar de mãos dadas com o sorriso da verdade (e da vaidade)... mas o que era lindo diante de nós, horas depois não passa de uma ressaca sem fim.

Maldita ressaca sem fim. Sem fim.

 

“SÃO SÓ GASES...”

 

Pode ser um defeito meu, mas eu costumo me apaixonar muito rápido. E como paixão é uma coisa muito fugaz, desapaixonar é tão fácil quanto. Muitos chamam isso de inconstância, mas eu acho ótimo não sofrer tanto por causa de uma coisa/pessoa que não corresponde às minhas expectativas. É o que eu falei uma vez por aqui: “não é que eu seja inconstante... é que nada me interessa o suficiente...”.

 

Até um mês atrás eu estava toda abobalhada com um relacionamento. Suspirava litros de amores pelo cara e contava as horas pra me aninhar embaixo do sovaco dele. Até que o jeito como ele se comportava começou a me irritar e eu comecei a “desgostar”. Não que eu não sinta mais nada, até porque eu sinto... (até hoje me incomoda o fato da gente ter “terminado”). Mas sei lá... às vezes eu fico pensando se meus sentimentos não são assim, tipo... gases.

 

De acordo com um estudo feito pelo Massachusetts Institute of Tecnology (*mentira, tô inventando essa pesquisa pra dar mais dramaticidade à história), uma pessoa normal (eu falei NORMAL) produz um litro de peido por dia. Ou seja, uma média de 14 puns diários. E se você não solta, é que começa o problema, pois ele vai acumulando em seu corpo, fazendo com que você sinta um grande aperto, principalmente no peito. A impressão que se tem é que se pode morrer de um infarto a qualquer momento. Mas que nada... basta respirar fundo, pensar, relaxar e pronto. A parada sai e fica tudo certo... parece que nada aconteceu. Bem assim é a paixão comigo. Se o que eu espero dela não vem na mesma proporção que vai, já era. Respiro fundo, penso, relaxo e pronto. Simples assim.

 

Antigamente (tipo, nos primórdios da humanidade, quando Hebe Camargo ainda era virgem), eu não era assim não. Eu guardava muito peido e também reprimia muitas paixões. Aquilo me prejudicava tanto, que chegou uma época que eu tinha que tomar remédio para as duas coisas. Porém meus amigos... a vida é uma caixinha de surpresas (/Joseff Climber). Com o passar dos anos, fui aprendendo sozinha que não liberar o ar dá nó nas tripas. E que alimentar sentimento não correspondido é uma caixa de Prozac por semana, fora os ataques de histeria.

 

Apesar da comparação esdrúxula, ainda acho que se apaixonar vale a pena, pois é essa sensação de frio na barriga que faz nossos olhos brilharem. Se bem que frio na barriga também pode ser o prelúdio de uma grande diarréia. Mas enfim... sejam gases ou paixões, o que importa é que, as duas sensações nos fazem sentir vivos.

 

Vou nem falar sobre o amor que eu sinto até hoje por uma pessoa. Hahaha!

Eu nunca soube esperar. Impaciente mesmo com as coisas onde o tempo nunca me pertenceu, sempre quis controlar os segundos a favor do meu próprio umbigo. Senhora de toda razão, penso que posso determinar pensamentos somente manipulando as ações dos outros a meu bel prazer. Não por maldade. Mas sim por um egoísmo que anda de mãos dadas com o horror da certeza de que o sentimento dos outros em nenhum momento estará sob meu comando.

 

 

Diante das coisas que tenho passado, me dei conta de que apagar recados, deletar e-mails ou mensagens do celular não vão acabar com o que vivi. Não adianta pulverizar todas as fotos, rasgar todas as cartas, jogar todas as flores (mesmo as que foram guardadas vivas em cima da prateleira) fora. Não adianta nada. O que aconteceu, tá acontecido.

 

 

“QUEM MUITO ABAIXA, O CU APARECE”

Desde pequena, aprendi a não ser submissa, a não baixar a cabeça por uma simples ordem de alguém. Talvez eu tenha nascido com o dom de questionar, mas muito desse meu temperamento devo ao meu pai e à minha avó, que sempre me diziam: “Minha filha, quando lhe atirarem uma pedra, atire outra de volta. Quando você estiver certa, defenda seus interesses. Nunca deixe ninguém lhe pisar, pois quem muito abaixa, o cu aparece.”

Há quem diga que pessoas como eu nunca serão bem vistas em lugar algum, já que ninguém quer por perto quem não siga regras. Porém, aqui eu rebato: há uma diferença muito grande em “não seguir regras” e “não louvar as ordens impostas como se fossem virtudes”.

Viver com prudência, sempre com um sim nos olhos e um sorriso nos lábios. Sem dúvida estes são alguns dos itens mais contemplados de um ser humano em sua fase adulta. E com enxurradas de obrigações (sejam elas com a família, com o trabalho e com a sociedade como um todo) temos que nos privar do nosso mais nobre amor-próprio para nos conservar por mais tempo. E aqui concluo: nunca serei deste mundo.

Semana passada, bem queria eu meu pai ou minha avó ao meu lado para me apoiar quando eu disse NÃO. Queria que eles falassem a todos que me olharam feio diante da minha negativa a mais uma exploração: “O cu dela não está à venda para ser colocado ao bel prazer de vocês, como produto numa vitrine”. Assim eu me sentiria muito melhor, diante da recomendação de “altruísmo' pelo “bem comum”. Talvez eu não me sentisse tão culpada por ter defendido meu orgulho, quando deveria ser obediente, casta e piedosa.

Às vezes sinto pena de nós que somos educados a pensar e agir sem exaltação. Encarniçados pelo zelo cego do “AMÉM!”, rezamos a cartilha do bom samaritano, sabatinando quem está ao lado a tomá-la como hábito/instinto/paixão.

OBEDIÊNCIA é moeda de troca. Vira dinheiro nas mãos de quem sabe ser submisso. Mas eis o que indica a contradição da fundamentação dessa moral: ao mesmo tempo que me fizeram demônio por não ter agido com o equivalente ao desinteresse, pintaram descaradamente o proveito pessoal e o lucro em cima daquilo que manifestaram querer de mim: rabo para cima, sem medo de “ser feliz”. Retrato do que é típico perante as relações de poder: “O que é meu, é meu. O que é seu, É NOSSO.”

Não tenho interesse em estar para um magnânimo pelo simples “prazer” de servir. Evitar falar de mau-tempo para quê, se há nuvens lá fora? Não vivo travestida de boas novas. Se minhas roupas são velhas e curtas, sei que o cuidado deve ser triplicado na hora dobrar minha coluna. Mas independente de minhas vestes, a curvatura do meu corpo só vai até onde o limite da minha dignidade permite.

Meu pai e minha avó sempre diziam: “Quem muito abaixa, o cu aparece”. E se você gosta de mostrar o cu, problema seu.

AO QUE SE CHAMA DE AMOR

 

Cupidez e amor: como estas duas palavras soam diferentemente nos nossos corações!... Pode ser, no entanto, que exprimam ambas o mesmo instinto que receba dois nomes: o primeiro perjurativamente, do ponto de vista daqueles que já receiam, entretanto, entre os seus “bens”; a segunda elogiosamente, do ponto de vista dos insatisfeitos e dos ávidos que acham “bom” este instinto. O nosso amor pelo próximo não será o desejo imperiosos de uma nova propriedade? E não sucede o mesmo com o nosso amor pela ciência, pelo saber, pela verdade? E igualmente com todos os desejos de novidade?

 

Cansamo-nos pouco a pouco do antigo, do que possuímos com certeza, temos ainda a necessidade de estender as mãos; mesmo com a mais bela paisagem, quando vivemos diante dela mais de três meses, deixa de nos poder agradar, qualquer margem distante nos atrai mais: geralmente uma posse reduz-se com o uso.

 

O prazer que tiramos de nós próprios procura manter-se, transformando sempre qualquer coisa nova em nós mesmos, é precisamente a isso que se chama possuir. Cansar-se de uma posse é cansar-se de si próprio (pode-se também sofrer com o excesso; à necessidade de jogar fora, de dar, pode assim atribuir-se o nome lisonjeiro de “amor”). Quando vemos sofrer uma pessoa, aproveitamos com gosto essa ocasião que se oferece de nos apoderarmos dela; é o que faz o homem caridoso, o indivíduo complacente; chama também de “amor” a este desejo de uma nova posse que despertou na sua alma e tem praazer nisso como diante de uma nova conquista iminente.

 

Mas é amor de sexual que se revela mais nitidamente como um desejo de posse: aquele que ama quer ser possuidor exclusivo da pessoa que deseja, quer ter um poder absoluto tanto sobre sua alma como sobre o seu corpo, quer ser amado unicamente, habitar e reinar na outra alma como o mais alto e o mais desejável.

 

 Se considerarmos que isso não significa outra coisa senão excluir o mundo inteiro do gozo de um bem, de uma felicidade preciosas; se pensarmos que aquele que ama, visa empobrecer e privar todos os demais competidores e tornar-se o dragão do seu tesouro, sendo o mais implacável “conquistador”, o explorador mais egoísta; se imaginarmos, por fim, que todo o resto do mundo lhe parece indiferente, desbotado, sem valor, e que se encontra disposto a efetuar qualquer sacrifício, a perturbar qualquer ordem estabelecida, a relegar para segundo plano qualquer interesse; então, espantamo-nos que esta cupidez bárbara, esta furiosa injustiça do amor sexual tenha sido a tal ponto glorificada, divinizada e todos os períodos da História, que se tenha extraído deste amora idéia de amor contrário do egoísmo, quando representa talvez a sua expressão mais direta.

 

Esse uso lingüístico, evidentemente, deve ter sido criado por aqueles que não possuíam e desejavam possuir – talvez tenham provavelmente existido sempre em maior número –. Aqueles que possuíram muito e que conheceram a saciedade, deixaram por vezes escapar uma palavra falando de “demônio furioso”, como Sófocles, o mais adorável e o mais amado dos atenienses; mas Eros sempre riu de semelhantes blasfemadores – eram os seus favoritos - .

 

Existe realmente, aqui e além da terra, uma espécie de prolongamento do amor, no qual o desejo que dois seres experimentam um pelo outro dá lugar a um novo desejo, uma nova cobiça a uma sede superior comum a de um ideal que os ultrapassa a ambos: mas quem é que conhece tal amor? Quem o já viveu? O verdadeiro nome é amizade.

 

N.

Se eu sou inteira e você metade, nunca seremos dois.

TRÊS QUARTOS E UMA SUÍTE

 

 

Toda vez que ela sentia um aperto no peito, ou quando lembrava de uma coisa ruim, o caminho mais fácil para o seu conforto era aquela almofadinha natural que ficava entre o coração e a perdição.

 

Dono de um dos melhores cheiros que já conheceu, seu perfume a envolvia tanto quanto seus braços, como a um bichinho que tem ojeriza até da própria sombra. E era ali que ela conseguia deixar todos os demônios que afugentavam sua sanidade. Era só por a cabecinha ali para tudo desaparecer. Agora bastava ela levantar e ver os seus olhos para sorrir e pensar no quanto é bom um homem com pancinha.

 

Por falar em pança, a dele era tipo uma “três quartos e uma suíte”. Tão confortável e grande que não se pode nem imaginar quantos litros de baba alguém poderia derramar ali em cima, sonhando calmamente.

 

Certamente Deus quando quer recompensar o coração de uma mulher, manda logo alguém com essa protuberância abdominal. Quando quer simplesmente satisfazer os desejos mais sórdidos de quem não conhece o verdadeiro caminho da felicidade, coloca na frente algo que transborda mais músculos do que cérebro.

“Uma rolinha consegue construir um ninho, mas precisa de outra pra procriar. É isso que muita gente não percebe quando aponta o dedo na cara do outro, achando que é auto-suficiente."

 

 

 

Definitivamente, os homens acham que eles SEMPRE precisam de sexo. E que as mulheres fazem isso só por amor.

 

Conversando com meu namorado dia desses, a gente acabou tocando no assunto “sexo”. Não sexo entre nós dois, mas sexo em geral e como as pessoas se comportam diante do fato e do ato. Sei lá, uma coisa meio didática até. Enfim.

 

Com uma justificativa que serviu pra outras coisas também, ele afirmou que homem precisa estar “renovando o estoque” constantemente e que isso é uma necessidade do corpo, porque segundo ele, caso o esperma não saia, o saco vai ficando inchado e pode dar problemas. E, no mínimo, isso acaba também justificando as atitudes de alguns homens que, para “cuidar melhor da sua saúde genital”, acabam traindo suas respectivas companheiras, caso o sexo não seja frenético.

 

Hunrun... Sei.

¬¬

 

Para os desavisados, o corpo da mulher também dá sinais de que precisa transar. Não só os notadamente psicológicos como raiva, impaciência e sensibilidade emocional (“Ai tô feia, tô gorda, ninguém sente tesão por mim”  e por ai vai). Os físicos, apesar de não aparentes, existem sim. E como existem.

 

Para alguns, eu como mulher falar sobre isso é o cúmulo da falta de moral cristã. Antes de continuar, deixe-me logo avisar aos navegantes: caguei baldes.

 

Mulher, em idade sexual – “pronta para o abate”, como dizem meus amigos – apresenta uns sintomas estranhos. Quando a guria é moça pura – como diz minha mãe – e ainda não abriu as portas da esperança, começa a descobrir o corpo e uma hora, começa a sentir prazer com aquela descoberta. E é só começar a dar aqueles beijos mais quentes com os peguetes que as funções do corpo começam a se manifestar. Ache graça quem quiser, mas as coisas vão de tremedeira nas pernas, até aquela quentura na pipia (o famoso “fogo na bacurinha”).

 

Bem lembrado pelo meu alter-ego aqui em conversa eme-ése-ênica, foi o caso que contei a ela da tia de minha ex-vizinha, que é de Itabaiana. A veia cismou que queria morrer casta (gente de interior é a peste...). Não deu outra. Teve problema na vadjáina.

 

E se a mulher já teve relações? A coisa fica mais tensa ainda. O útero dói, a pipia fica latejando. É uma miséria. Contudo, no entanto, entretanto... nem por isso tudo quanto é mulher vive com a xereca in flames, soltando raduken-shoriuken pela florzinha e dando por aí.

 

“Cientificamente falando, o macho tem a necessidade de cópula três vezes maior do que a da fêmea” *voz do locutor da Discovery Channel*. Velho, então na moral aê que eu sou um homem com buceta.

GRRRR

 

 

Dentre as coisas que eu mais odeio na vida, sem dúvida nenhuma, uma delas é gente com falta de absurdo.

 

Exemplo disso é gente que me dá toquinho pra que eu retorne. Velho... se for urgência, ainda vá lá. Pô, a pessoa tá sem crédito e desesperadamente precisa de minha ajuda? Beleza de Creuza. Agora fazer isso pra não gastar dinheiro, vá tomar no cu. Então eu pago meu celular todo mês certinho pra nego usar MEUS créditos? Ah... má vá...

 

Outro exemplo é gente que me liga e pergunta “Quem é?”. “Quem é?” uma pica. Se você liga pra um número, deve estar querendo falar com alguém. E se você não sabe pra quem é que você está ligando, imagine eu! E se achar ruim quando eu perguntar de volta “você quer falar com quem?”, mando tomar no cu também. Pura classe e glamour.

 

O que me deixa também com os pentelhos chamuscando de ódio é gente que fica se fazendo de coitada, pra que os outros possam sentir pena e dar tudo que elas querem. Ô raiva infeliz quando eu vejo esse povo de boca mole fazendo manha e dizendo: “Ah, mas eu tô tão sem dinheiro... nem posso sair.”. Velho, uma coisa é você estar sem grana uma vez, duas... sei lá. Mas toda vez isso e toda vez fazendo charme pra alguém? Pff.

 

Caceta... ainda tem aqueles que adoooooram tirar onda com a cara dos outros e não se agüentam depois quando recebem o troco. Colocam apelidos, riem de passar mal apontando o dedo... mas é só alguém falar um “ai” dela, que ela se afeta logo. Porra, pra mim a parada é simples. Ou você tira suas ondas e se agüenta depois, ou então fique na sua e morra. Porque sempre um cristão vai pegar no seu pé por alguma besteira que você fez ou falou. Tem um ser vivo mesmo que um dia chorou litros de rir de uma coisa que eu tinha feito. Quando eu revidei no mesmo nível de mangação, aí vem com um “Vamo parar com essa brincadeira sem graça”. Sem graça uma ximbica! Não agüenta, beba leite com nescau.

 

Então, nego já sabe: se começar a fazer esse tipo de coisa em minha frente, reze pra que eu só olhe feio. Porque se eu começar a falar as do fim, corra. Comigo o esquema é: “depois da tempestade, vem o prejuízo”.

 

 

A primeira de todas as suas memórias ao acordar foi ter fumado um novo cigarro. Acostumada com o mesmo tipo de fumo há muito mais de três anos, foi uma luta para conseguir comprar outra carteira que não fosse aquela sua, de companhia sempre constante. Mas a cada hora que passava, o trago do outro lhe fazia sorrir aquele sorriso envergonhado, de canto de boca.  E toda vez que olhava para a fumaça que expelia, pensava no quanto as pessoas são tão resistentes à mudança. E também no quanto deixam de arriscar por ter medo do novo.

 

Quem não fuma não sabe o valor de um simples cigarro nas horas mais difíceis. Quem não fuma também não sabe que mudar de cigarro é que nem mudar de amor de uma hora para outra. É que com aquela marca você estabelece a cumplicidade que poucos teriam a coragem de ter com qualquer um. É ele o salvador, o vingador, a mão entrelaçada ao andar sozinho na rua arrasado por um mal-querer.

 

Continua sendo mentolado, com embalagem e conteúdo parecidos... mas finalmente ela mudou de cigarro. Não que o outro não fosse bom, pois continua sendo. Mas já estava na hora de soltar as amarras. Se ela vai pensar em voltar a fumar o antigo cigarro, nunca se sabe. O que se sabe é que, não importa a marca do cigarro. A nicotina é o que lhe faz sentir-se bem.

Ela diz:

  Você praticamente não me liga. Isso me chateia.

 

Ele diz:

  Mas você disse que não gosta de ficar falando ao telefone.

 

Ela diz:

  O fato d’eu não gostar de ficar pendurada no telefone, não quer dizer que você não possa ligar pra mim de vez em quando, pra saber como eu estou, pra dizer que lembrou de mim.

 

Ele diz:  

   Eu lhe entendo. Desculpe, eu vou prestar mais atenção.

 

Ela diz:

   Hunf.

 

Ele diz:

  Então amanhã eu ligo pra você, pra lhe dizer se aquilo que você me pediu vai estar de pé.

 

Ela diz:

  E pra dizer que gosta de mim, você liga quando?

 

Ele diz:

  Espere.

 

 

O MSN ficou mudo por dois minutos. Chateada por achar que estava sendo ignorada, Ela simplesmente ia sair do computador e considerar aquela história como encerrada. Foi quando o telefone tocou.

 

 - Alô?

 - Eu gosto de você.

 

Sem saber o que dizer, Ela ficou mais vermelha do que tudo e quis desligar o telefone de vergonha. É que naquele momento Ele a fez sentir a mulher mais amada de todos os tempos. E se Ele soubesse o quanto aquilo a emocionou, poderia ter ido à casa dela ter uma das melhores noites de sua vida. Hahahaha!

 

 

Essa faixa, eu encontrei nas minhas andanças pelas ruas de Ará, na terça-feira. Coincidência ou não, um dia antes eu tinha feito uma matéria sobre a quantidade de vezes que os vereadores têm faltado ao trabalho. E durante o processo de apuração das informações, descobri que dos 19 vereadores, somente 8 deles compareceram à sessão. Destes 8, 3 faziam missa de corpo presente, 4 estavam passeando entre as galerias e 1 falava sobre coisas aleatórias.

 

Aí tem gente que fala que eleição é a festa da democracia, que os políticos são os representantes do povo. Ah claro, pô, porque o povo no mínimo vive assim, de perna pra cima, sem fazer nada e de papo pro ar.

Eu não gosto de me sentir substituível. Pra mim é como se a qualquer momento, outra pessoa pudesse ser eu, sem que as outras ao redor sintam a diferença.

 

Dia desses, um dos meus melhores amigos me veio com a noticia de que tinha sido demitido. Eu não sabia direito o que dizer, pois consolar alguém em situações como estas é que nem dar pêsames a quem acabou de perder um ente querido. Então, me limitei a tentar animá-lo, falando algumas besteiras. Mas não adiantou. Eu sei que não. Nem todo consolo do mundo ia trazer o emprego dele de volta, ou dar o dinheiro que o sustenta no mês.

 

Depois de ele ter me contado sobre a demissão, fiquei impressionada. Quando terminou a conversa, fui dormir e acabei sonhando que tinha sido demitida também. Desde então, venho me sentindo ameaçada sob qualquer condição. Se acontece alguma besteira, se discuto ou se dou uma mancada – por menor que seja -, sempre fico a pensar que não adianta o quanto eu seja boa (ou não) naquilo que faço, ou o quanto eu me esforce para ser legal. No primeiro deslize, todo esforço que eu fiz e tudo de melhor que eu dei, contam como um nada bem grande, já que sempre vai ter alguém para ser colocado em meu lugar. Bom ou ruim, sempre terá.

 

Isso me faz sentir um produto descartável, dá uma sensação tão ruim... será que eu sou tão dispensável, que não tenho importância alguma? E se eu sou um produto, será que meu valor é tão baixo assim?

 

Às vezes a vida é muito ingrata com pessoas como a gente. Espero não ter que passar por esta situação, porque ao contrário do meu grande amigo, eu não ia suportar ver que para os outros, no meu lugar, qualquer um serve.

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